" Não importa
a poeira que as memórias se tornam
as folhas que dançam no vento
as lágrimas que desejamos esquecer
Nunca deixei de pensar em você
e quando o faço
sorrio com o seu sorriso
choro com o seu choro
Peço olhando para além do horizonte sideral
um perdão que nunca terei
um último abraço que jamais me aquecerá
um último olhar que não encontrará as minhas meninas
uma última palavra -mesmo que destrutiva ou indiferente- que apenas me recorde da sua voz
Os dias que sonho que tudo ainda existe
em que no outro lado estou, aliviado pela irrealidade de um desenlace eterno
é apenas um outro dia em que o perfeito existe
nos olhamos ternamente e não há sofreguir...
tudo o que se foi volta
e tudo o que estava retorna ao passado
A essa altura nada mais importa
não há o que valha pena vindo de uma fonte profusa de nada
resta o consolo de ter ficado para trás
sem cores, sem som, sem emoções
uma página virada, um capítulo terminado
-ou quem sabe um livro inteiro queimado-
uma imagem obtusa, que se confunde
obscena, bela, maldita, doce
que se fez entender quando não devia
que estava cheia de significados que se calaram
que parecia tão plena, e no fim era vazia
que era tão vívida, mas em realidade era monocromáticamente mórbida
Este servo tratado e saudável,
apenas fita seu vulto constante, distanciando-se sem sumir
feliz por ter gerado um novo ciclo
por ter criado uma nova realidade
maior e mais real do que aquela que débilmente fui capaz de manter
mesmo não sendo para mim...
apenas não importa"


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